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A fusão entre o Pão de Açúcar e o Carrefour é positiva sim em todos os aspectos.

Depois de semanas de especulação, finalmente o Carrefour anunciou, em 28/06/11, haver recebido proposta de fusão com o Pão de Açúcar. Imediatamente vimos reações em sua maioria, contrárias a realização do negocio. Puro medo.

Só uma marca com o poder que tem a do Pão de Açúcar, somadas a imagem de Abílio Diniz e a da não menos prestigiada bandeira Carrefour, poderiam sacudir o mercado como fizeram. Em outros setores da economia, essa reação não aconteceria.

Lembram-se quando o Pão de Açúcar começou sua reestruturação pelas mãos de Claudio Galeazzi, o mesmo que está agora no BTG intermediando a fusão? Foram demitidos ao mesmo tempo, 22 executivos! No dia seguinte, deu manchete nos jornais e tamanha reação não teria acontecido em outra empresa, prova de sua intimidade com o consumidor e a sociedade.

A opinião pública se viu diante da possibilidade da formação de um gigante, que passaria a esmagar consumidores com sua força, impor preços altos. Pior, toda essa “maldade” financiada pelo BNDES, banco estatal lastreado com dinheiro do tesouro nacional.

O sócio Casino se viu ameaçado em ficar de fora daquilo que a imprensa chamou de “o novo eldorado do varejo” ao se referir ao mercado brasileiro. Talvez a visão imperialista do empresário francês não admite contemplar a possibilidade de ser liderado por seu sócio emergente brasileiro.

O CADE, com pouca credibilidade ainda dada sua lentidão e fraca estrutura, teve uma postura correta, a favor da livre iniciativa e livre mercado como deve ser, pois defende a liberdade e a boa ordem econômica entre empresas e consumidores. Lembrou da possível interferência, caso a fusão se concretize, em situações especificas, ou seja, em cidades, bairros ou regiões onde a concentração da nova empresa seja excessiva e possa impedir a prática da livre concorrência. Nesse caso será necessário ou o fechamento de lojas ou a venda para terceiros:

– boas oportunidade pela frente!

Alguns políticos, como de costume, vieram a luz para contra ou a favor não importa, aparecerem, sem entretanto, nenhuma contribuição efetiva. Sindicatos também aproveitaram a deixa para reagirem como de costume, ante a possibilidade de construírem ações proativas e antecipadas, como devem ser. O mundo olha para o Brasil e os novos investimentos, principalmente em varejo, serão realizados aqui.

Fornecedores não se manifestaram mas também estão com medo de verem os seus dois maiores clientes no Brasil se transformarem em um só. Imaginem o tamanho do pedido? E das exigências, descontos, condições contratuais, logística, etc.? Preparem-se!

Os concorrentes também não se manifestaram mas devem ter perdido horas de sono pensando, como competir com alguém tão poderoso? Pois é, o sapo nunca esteve numa chapa tão quente e a temperatura vai subir.

Enfim, tivemos um episódio que mexeu com toda a sociedade em suas diversas formas de atuação. Viva a democracia! É isso que estamos construindo, que levamos muitos anos para conquistar – e esse é o primeiro ponto.

Segundo ponto, o BNDES tem mesmo que ajudar o capital nacional a se firmar globalmente pois ao contrário, seremos eterna colônia pagando royalties a nações desenvolvidas. O investimento estrangeiro gera sim emprego por aqui, mas seu rendimento paga a aposentadoria e demais benefícios sociais em seus países de origem, como hospitais, creches e escolas literalmente de primeiro mundo.

Além disso, uma empresa brasileira de classe mundial leva seus executivos a ocuparem cargos lá fora. O que vemos nos últimos meses é o recorde de entrada de estrangeiros em nosso país e eles não chegam para trabalhar na construção civil como pedreiros ou como repositores nos supermercados, chegam para ocupar cargos de liderança e de alto nível.

O Carrefour está no Brasil desde 1974 e apenas em 2010, depois de 35 anos aqui instalado, elegeu pela primeira vez um executivo brasileiro como presidente. Recentemente uma empresa brasileira contratou um executivo que estava desempregado havia mais de um ano para ocupar a posição principal de sua unidade na Rússia. Se essa empresa fosse estrangeira, quem seria contratado? Ah, ela também teve ajuda do BNDES para se reestruturar.

O tesouro das nações ricas têm auxiliado tanto a expansão como a recuperação de empresas. Vejam o caso de empresas européias que aproveitaram oportunidades de ouro na época das nossas privatizações. E a ajuda que a GM e bancos americanos receberam do tesouro dos EUA?

Aqui, no Núcleo de Estudos do Varejo da ESPM, formamos jovens para atuarem como gestores de varejo e esperamos que eles venham a ocupar cargos de liderança em empresas globais, porém para que isso aconteça, devem haver oportunidades pois ao contrário, serão subordinados a esses milhares de estrangeiros que chegam a todo o momento.

Nacionalismo? Não, apenas equilíbrio de forças afinal nos preparamos para sermos em breve a quinta maior economia e não faz sentido aceitarmos eterna subordinação.

Será que não sabemos avaliar quão suada está sendo essa conquista? Ditadura e inflação combatidas com democracia, código de defesa do consumidor, plano real e mais recentemente, crescimento econômico.

Ainda na defesa pela criação de empresas brasileiras fortes globalmente, como é o caso de Petrobras, Vale, Embraer, a manutenção da sede de um grande grupo no país movimenta a economia espetacularmente. No caso da provável nova empresa constituída pela fusão entre Pão de Açúcar e Carrefour, grande parte de seus fornecedores serão locais e não me refiro apenas aos fornecedores de produtos mas também os de serviços. Assim, com a necessidade por novos projetos de lojas, será contratado uma empresa de arquitetura local, consultoria, idem, formação e treinamento também, contratação de pessoal e de executivos, a mesma coisa. Forma-se uma cadeia produtiva sem limites e é isso que defendemos.

Terceiro, essa fusão deve nivelar o mercado por cima. Antevemos a melhora do nível de qualidade do varejo brasileiro a partir da concretização da fusão anunciada.

Para poder competir com a nova empresa a ser formada, os demais concorrentes deverão ser melhores, aprimorar seus serviços e elevar o nível dos profissionais e executivos que compõem seus quadros. Nos EUA esse fenômeno é facilmente verificado.

Com o crescimento fantástico alcançado pelo Walmart, seus concorrentes tiveram que melhorar muitos e os que não o fizeram, desapareceram. Surgiram redes de altíssimo nível para poder enfrentar com qualidade aquilo que o Walmart oferece com preço.

Prova é que, até o período imediatamente anterior a crise econômica mundial, essas redes de alta qualidade ganhavam mercado do Walmart constantemente, pois os consumidores percebiam que só preço baixo não era suficiente para satisfazê-los. Com a crise, empresas focadas em preço baixo retomaram o mercado mas deve ser esta uma situação temporária, pois assim que a crise terminar, os consumidores migrarão novamente para aqueles que oferecerem melhor relação custo / beneficio.

Exemplos como este não são raros por aqui. Em Bauru existe uma rede local que não dá chance a nenhuma `as redes de fora, por maior que sejam. São lojas de excelente nível, nas melhores localizações e que geram orgulho `as pessoas que lá residem por saberem que o melhor é o local. São muitos exemplos como este que poderíamos listar aqui, a questão pode ser, até quando tais empresas resistirão? Se elas tiverem recursos e conhecimento para expandirem, permanecerão.

Quanto aos fornecedores, idem, terão que melhorar muito para não sucumbirem `as negociações de altos volumes a preços lá em baixo. São grandes empresas globais, aliás, que viveram exatamente a situação oposta quando eram muito maiores que seus clientes varejistas.

Nos últimos anos vêem a inversão da situação, tornando-se menores que seus clientes. Qual a saída? Melhorar, melhorar e melhorar para construírem relacionamento com a nova empresa visando o consumidor final pois esse deve ser o objetivo comum.

Lá fora esse assunto vem de longa data. Muitos fabricantes se uniram, alguns por meio de fusões, para poderem enfrentar os grandes varejistas em situação mais equilibrada. Pode ser que isso venha a acontecer aqui também.

No mais, nós consumidores, também teremos que sair da zona de conforto e brigar mais por nossos direitos, necessidades e desejos. A internet está aí para nos ajudar a comprar em qualquer lugar a qualquer hora, inclusive dentro das lojas da nova empresa. Se o que você presenciar não o satisfizer, saque seu smartphone, compre em outro lugar e receba tranquilamente em casa.

Um grande grupo como o que vai se formar não vai querer conquistar a antipatia dos consumidores ao agir com arrogância. Deverá se aprimorar para defender sua posição e conquistar mais mercado afinal, terá que remunerar muito bem os novos acionistas.

Amadureceremos todos nesse processo que, embora não esteja concluído, jamais voltará a ficar como estava. Devem haver outras empresas correndo por fora mas não deverão haver surpresas e reviravoltas pois a negociação vem sendo muito bem conduzida em todos os detalhes. Vamos aguardar e torcer para o consumidor brasileiro ganhar mais essa!

Ricardo Pastore, Prof. Msc. Coordenador do Núcleo de Estudos do Varejo da ESPM.

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