>De São Paulo
18/12/2009
Claudio Belli/Valor

Na rua Oriente, no Brás, o consumidor começa a circular à uma e meia da manhã
Na Feira da Madrugada do Brás, o item mais procurado é um só: o “vestido da Geisy”. Curtinhos ao estilo do que alvoroçou estudantes da Uniban contra a universitária paulistana Geisy Arruda, em novembro, é de longe o mais vendido nas bancas de camelôs da rua Oriente, rua São Caetano, rua Monsenhor de Andrade e outras travessas ao redor do Shopping Popular da Madrugada. A peça, em mais de 30 cores diferentes, sai por R$ 15 no varejo e R$ 10 no atacado.

“É o vestido da ‘periguetis’?”, questionou empolgada a assistente social Sandra Mol, logo que chegou à feirinha, apelidando a moça com a expressão que quer dizer perigosa, atraente, sedutora. “É a primeira vez que venho”, disse ela que saiu de casa, na Zona Sul de São Paulo, à 1h. No meio da rua, ela experimentava o modelo por cima da roupa. “Todos são tamanho único”, informou o vendedor. Animada, tirou R$ 15 do bolso e fechou negócio. “Agora vou dar uma volta na rua e depois ir ao shopping”, disse Sandra.

Geralmente, esse é o roteiro de quem visita a feira no início da madrugada, enquanto as ruas ainda não estão lotadas de gente. Em meio às bancas, muitas ainda por serem montadas, os consumidores checam as mercadorias, ao som de um funk carioca na primeira parte do quarteirão, de samba, logo à frente, e em seguida ao ritmo do que mais os vendedores de CD piratas estiverem tocando.

“Aqui fora, o ‘rapa’ passa, mas é mais animado e a gente não paga aluguel”, diz Edgar Lima, vendedor de roupas. Ele e a família compram o tecido e cortam os moldes das peças. Costureiras da zona leste da cidade terminam a produção, que atualmente se resume a vestidinhos-Geisy. Tudo que a família produz ele vende na feirinha. “Tem noite, quando chove, em que a gente não vende nada. Em outras, vendo até três mil unidades. Se chegar aqui um revendedor e me pedir 500 ou mil vestidos, tenho para entregar na hora”, conta ele, que comprou o ponto em que está há um ano, por R$ 1 mil.

Cada metro da região tem dono. A demarcação de território começa antes da meia-noite (nessa época de Natal) e por volta de 1h da manhã, no restante do ano. Cada dono de ponto manda um “guardador” para sua vaga. Geralmente, cada “guardador” toma conta de cinco a sete vagas, reservando o espaço com cones ou com mesinhas de madeira (do tipo sanfonada, que camelôs costumam usar). À meia noite, chegam os vendedores com as mercadorias para montar as barraquinhas. Na mesma hora, carrinhos de sanduíche de pernil, milho verde, “dog-prensado” e outros quitutes começam a aquecer suas chapas ou panelas de água. À uma e meia da madrugada, chegam os compradores: turistas, sacoleiros, camelôs de outras cidades e de outros mercados populares, diurnos, de São Paulo.

“Em outubro, já começa o movimento de final de ano”, diz Washington Pio, que há dez anos vende manequins na feirinha da rua, do lado de fora do shopping. “Tem gente que durante esses meses aluga o ponto. Dependendo da localização, eles cobram até R$ 1,2 mil pelo lugar”, explicou.

Pio não arreda pé dos seus metros quadrados na rua Oriente. Ele estaciona a Kombi (onde às vezes fica dormindo a filhinha de oito anos) e expõe os manequins que fabrica na sua casa, no bairro de Itaquera (zona leste da capital paulista). “Venho para cá todos os dias há três anos. São três anos em que durmo só quatro horas por dia: das 20h à meia-noite. Mas tem dois meses que estou acordando mais cedo”, explicou.

Com o busto feminino a R$ 10 e o manequim infantil com cabela cabelo e tudo a R$ 70, Pio vende seus manequins, principalmente, para lojistas do interior e de outros estados. “Mas muitos camelôs daqui mesmo da rua compram de mim”, disse ele. Vendedores de outros shoppings “genéricos” que vão surgindo nas redondezas também fazem parte de sua freguesia. Um desses é o Shopping Family – vizinho de parede a uma das entradas do Shopping da madrugada. São 370 lojas, a maioria de confecções populares: blusinhas, tops e vestidos em malha. Nada custa mais de R$ 30 a peça. (LC)